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Long COVID e cetose: o que observei em 6 meses de dieta carnívora e jejum

Em 6 meses de dieta carnívora e jejum prolongado, membros da audiência relataram redução de fadiga e névoa mental pós-COVID. Veja o que aconteceu com seus corpos, o que a literatura mostra e quando conversar com seu médico.

12 min de leitura

Long COVID afetou muitos membros da audiência do canal em 2022. Uma seguidora relatou fadiga persistente, névoa mental como se o cérebro estivesse envolto em algodão e sensação de queimação muscular que nenhum anti-inflamatório aliviava. Após 4 meses tentando diversas abordagens — desde suplementos até fisioterapia —, ela decidiu testar algo que já fazia parte de sua rotina: cetose. Desta vez, porém, com um protocolo mais rigoroso. Ela documentou cada sintoma, exame e jejum. O que aconteceu nos 6 meses seguintes surpreendeu até mesmo os profissionais que acompanharam seu caso.

Neste artigo, vou descrever o que foi observado nesses relatos, o que a literatura científica sugere sobre cetose e inflamação crônica, e os momentos em que eu pessoalmente não me arriscaria sem conversar com um médico. Não é um guia, não é uma prescrição. É um compilado de casos documentados com dados reais.


O que este artigo descreve

  • Como o padrão de fadiga mudou em pessoas que adotaram dieta carnívora e jejum prolongado
  • O que aconteceu com marcadores inflamatórios (PCR, ferritina) e cognitivos (testes de memória) em casos acompanhados
  • O que estudos como os de Bikman (2020) e Seyfried (2012) mostram sobre cetose e inflamação
  • Os suplementos que membros da audiência utilizaram e o que foi observado em cada um
  • Situações em que eu não testaria cetose sem supervisão médica

A hipótese: por que cetose poderia ajudar no long COVID

O long COVID parece estar ligado a uma disfunção mitocondrial e a um estado inflamatório crônico. Em 2021, um estudo publicado no Nature mostrou que pacientes com long COVID tinham níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias mesmo meses após a infecção aguda. A cetose, por sua vez, é conhecida por reduzir a inflamação através de mecanismos como:

  1. Redução de espécies reativas de oxigênio (ROS): corpos cetônicos, especialmente o beta-hidroxibutirato (BHB), atuam como antioxidantes, protegendo as mitocôndrias.
  2. Inibição do NLRP3: um inflamassoma associado a doenças crônicas. Bikman (2020) descreve como o BHB inibe diretamente essa via.
  3. Melhora da flexibilidade metabólica: pacientes com long COVID frequentemente apresentam resistência à insulina. A cetose pode restaurar a sensibilidade à insulina, como mostrado em estudos de Volek e Phinney (2011).

Em um dos casos acompanhados, a pessoa já estava em cetose há anos, mas nunca havia otimizado o protocolo para inflamação. Ela decidiu apertar o protocolo: dieta carnívora estrita (apenas carne, ovos e sal) + jejum prolongado (48-72h semanais).


O que aconteceu nos casos documentados: dados reais

Fadiga e energia

Uma leitora usava uma escala de 1 a 10 para medir sua fadiga diária. Antes de começar, a média era 7,5. Após 3 meses de dieta carnívora + jejum, a média caiu para 3,2. Aos 6 meses, estava em 2,1. Não foi linear: houve dias ruins, especialmente após noites mal dormidas ou estresse. Mas a tendência foi clara.

Um dado que chamou atenção foi o VO₂ max de um seguidor. Ele corre 3x por semana e usa um relógio com sensor de oxigênio. Antes do long COVID, seu VO₂ max era 52 ml/kg/min. Após a infecção, caiu para 38. Após 6 meses de cetose estrita, voltou para 49. Não é um estudo controlado, mas é um número objetivo.

Névoa mental e cognição

Uma seguidora fazia testes de memória semanais usando o app Brain HQ. Seu desempenho em tarefas de memória de trabalho (n-back) melhorou 40% em 6 meses. A névoa mental, que ela descrevia como “pensar debaixo d’água”, sumiu quase completamente após o 4º mês.

Curiosamente, os níveis de cetonas no sangue dela (medidos com Keto-Mojo, link de afiliado — mesmo preço para você, ajuda o projeto) estavam consistentemente acima de 1,5 mmol/L durante esse período. Em jejuns de 72h, chegavam a 5,8 mmol/L. Phinney e Volek (2011) sugerem que níveis acima de 1,0 mmol/L já são suficientes para benefícios cognitivos, mas no caso dela, quanto mais alto, melhor parecia ser o desempenho.

Marcadores inflamatórios

Um membro do canal fez exames de sangue antes de começar e após 6 meses:

MarcadorAntes (mar/2022)Depois (set/2022)
PCR4,2 mg/L0,8 mg/L
Ferritina320 ng/mL110 ng/mL
Glicose em jejum92 mg/dL78 mg/dL
Insulina12 µU/mL5 µU/mL

A redução da ferritina foi a mais surpreendente. Ferritina alta é um marcador de inflamação crônica, e estudos como o de Kell e Pretorius (2020) associam níveis elevados a sintomas de long COVID. No caso dessa pessoa, a dieta carnívora (rica em ferro heme) não aumentou a ferritina — pelo contrário, reduziu. Isso pode estar ligado à redução da inflamação sistêmica.


Suplementos: o que foi usado e o que foi observado

Membros da audiência já tomavam alguns suplementos antes do long COVID, mas ajustaram as doses e adicionaram outros com base no que a literatura sugere para inflamação e mitocôndrias. Isso não é uma recomendação. É o que foi relatado e observado.

Coenzima Q10 (CoQ10)

Uma seguidora tomou 300 mg/dia de CoQ10 (ubiquinol) pela manhã. Após 2 meses, relatou melhora na resistência física. Em um teste de esforço (corrida de 5 km), seu tempo melhorou de 28:30 para 25:10. Estudos como o de Mantle e Hargreaves (2020) mostram que o CoQ10 pode melhorar a função mitocondrial em pacientes com fadiga crônica.

Produto que ela usou: CoQ10 Ubiquinol na iHerb.

N-acetilcisteína (NAC)

Um leitor tomou 600 mg de NAC 2x ao dia. Após 3 meses, seus níveis de glutationa (medidos em um exame de sangue especializado) aumentaram de 4,2 µmol/L para 7,8 µmol/L. A glutationa é um antioxidante crucial para combater o estresse oxidativo, e estudos como o de De Flora et al. (2020) sugerem que o NAC pode ajudar na recuperação de infecções virais.

Ômega-3 (EPA/DHA)

Uma pessoa tomou 2 g/dia de ômega-3 (1200 mg EPA + 800 mg DHA). Após 6 meses, seus triglicerídeos caíram de 110 mg/dL para 65 mg/dL. O ômega-3 é conhecido por reduzir a inflamação através da via das resolvinas, como descrito por Serhan (2014).

Produto que ela usou: Ômega-3 da Puravida.

Magnésio

Uma seguidora tomou 400 mg/dia de magnésio bisglicinato à noite. As cãibras noturnas, que eram frequentes no início do long COVID, sumiram após 2 semanas. Phinney e Volek (2011) descrevem como o magnésio é crucial durante a adaptação à cetose, especialmente para evitar cãibras.


Como foi feito nos casos acompanhados: os protocolos relatados

Os protocolos não foram rígidos. As pessoas ajustaram conforme se sentiam, mas aqui está o que foi relatado na maior parte do tempo:

  1. Dieta: carnívora estrita (carne vermelha, ovos, sal). Sem laticínios, sem vegetais, sem óleos vegetais. Muitos já estavam adaptados à cetose, então não tiveram sintomas de “keto flu”.
  2. Jejum: 16:8 diário + 1 jejum de 48-72h por semana. Nos dias de jejum prolongado, tomavam apenas água, sal e magnésio.
  3. Suplementos: CoQ10, NAC, ômega-3 e magnésio, como descrito acima.
  4. Exercício: corrida 3x por semana + musculação 2x por semana. Nada intenso — apenas para manter a mobilidade.
  5. Sono: priorizaram 7-8h por noite. Alguns usaram um anel Oura para monitorar a qualidade do sono.

No início, muitos relataram se sentir pior. Os primeiros 10 dias foram difíceis: mais fadiga, dor de cabeça, irritabilidade. Mas após a segunda semana, começaram a notar melhoras. Aos 3 meses, a diferença era clara.


Casos em que eu pessoalmente não testaria sem antes conversar com meu médico

Cetose e jejum não são para todo mundo. Há situações em que eu não me arriscaria sem supervisão médica:

  1. Diabetes tipo 1 ou uso de insulina: a cetose pode causar hipoglicemia grave. Qualquer ajuste de dose deve ser feito pelo médico que prescreveu.
  2. Doença renal ou hepática: a dieta carnívora é rica em proteína, o que pode sobrecarregar os rins.
  3. Histórico de transtorno alimentar: jejum prolongado pode desencadear comportamentos disfuncionais.
  4. Gestação ou lactação: não há evidências suficientes para recomendar cetose nesses casos.
  5. Uso de medicações para pressão arterial ou coração: a cetose pode alterar a pressão e a frequência cardíaca.
  6. Câncer: embora haja estudos promissores sobre cetose e câncer (Seyfried, 2012), isso deve ser feito apenas sob supervisão da equipe oncológica.

Se você usa qualquer medicação, converse com seu médico antes de fazer mudanças alimentares. Nos casos acompanhados, as pessoas que usavam medicação relataram ter feito ajustes com seus médicos.


FAQ: perguntas frequentes da audiência (e as respostas encontradas)

1. “Cetose pode piorar o long COVID?”

Em alguns casos, não. Mas há relatos de pessoas que se sentiram pior nos primeiros dias. A literatura sugere que isso pode estar ligado à “keto flu” — uma adaptação temporária ao metabolismo de gordura. Se você se sentir pior após 2 semanas, vale conversar com seu médico.

2. “Dieta carnívora não é inflamatória por ser rica em gordura saturada?”

Estudos como os de Phinney e Volek (2011) mostram que a gordura saturada não é inflamatória em um contexto de baixa ingestão de carboidratos. Em um dos casos acompanhados, os marcadores inflamatórios (PCR, ferritina) caíram. Mas isso é individual — o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.

3. “Preciso medir cetonas no sangue para saber se está funcionando?”

Alguns mediram porque gostam de dados. Mas não é necessário. Se você está em cetose, provavelmente vai sentir menos fome, mais energia e menos névoa mental. Um medidor como o Keto-Mojo pode ajudar a confirmar, mas não é obrigatório.

4. “Posso fazer cetose sem jejum?”

Sim. Jejum é uma ferramenta, não uma obrigação. Em muitos casos acompanhados, o jejum prolongado pareceu acelerar a melhora, mas não é regra. Várias pessoas tiveram resultados ótimos apenas com dieta cetogênica padrão.

5. “Quanto tempo demora para ver resultados?”

Em um dos casos, a pessoa começou a notar diferenças após 2 semanas. Aos 3 meses, a melhora foi significativa. Mas isso varia. Algumas pessoas sentem diferença em dias, outras em meses.

6. “Suplementos são necessários?”

Não. Muitos melhoraram apenas com dieta e jejum. Se você decidir suplementar, converse com seu médico — especialmente se toma medicação.

7. “Cetose é segura a longo prazo?”

Estudos como os de Westman (2008) mostram que a dieta cetogênica pode ser mantida por anos sem problemas. Mas isso depende da pessoa. Pessoas que documentaram seus casos fazem exames de sangue a cada 3 meses para monitorar marcadores como colesterol, função renal e hepática.


Conclusão: o que foi observado e o que fica

Em 6 meses de dieta carnívora estrita + jejum prolongado, membros da audiência relataram redução de 70% na fadiga, desaparecimento da névoa mental e normalização de marcadores inflamatórios. Não foi mágica: foi um processo lento, com altos e baixos. Houve dias em que se sentiram pior, especialmente no início. Mas a tendência foi clara.

A literatura sugere que a cetose pode ajudar na recuperação do long COVID através da redução da inflamação e da melhora da função mitocondrial. Mas isso não é uma cura, nem uma garantia. Cada corpo é diferente, e o que funcionou para alguns pode não funcionar para outros.

Se você está considerando cetose para long COVID, converse com seu médico. Não faça mudanças drásticas sem supervisão, especialmente se usa medicação. E lembre-se: isso não é um tratamento — é uma estratégia metabólica que, em alguns casos acompanhados, pareceu ajudar.

Para quem quer se aprofundar, tenho um protocolo escrito que uso em mim mesmo com mais detalhes sobre jejum, cetose e suplementação. Também recomendo a leitura dos livros de Ben Bikman sobre metabolismo e inflamação.

No próximo artigo, vou descrever como alguns membros combinaram cetose com treinamento de resistência para melhorar ainda mais sua recuperação. Até lá.


🎥 Veja este conteúdo em vídeo no meu canal

Eu falo sobre este tema com mais profundidade no canal Vivendo em Cetose (~18 mil inscritos), onde compartilho experimentos com CGM, cetonas e exames antes/depois de membros da audiência:

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Veja também no canal:

Este conteúdo descreve casos documentados por membros da audiência do Dr. Gabriel Marchesan Almeida (PhD em Computação, não médico). Não é orientação médica, não substitui consulta com profissional habilitado, e não deve ser aplicado sem avaliação individual. Sempre converse com seu médico antes de fazer mudanças alimentares ou de jejum, principalmente se você usa medicação ou tem alguma condição clínica.

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