Em um caso documentado por uma seguidora no canal, um jejum de 7 dias resultou em uma queda do TSH de 3,2 para 1,8 (referência: 0,4–4,0), enquanto o T3 livre oscilou de 3,1 para 2,8 (referência: 2,0–4,4). Não foi uma queda drástica, mas suficiente para levantar a questão: será que a cetose afeta a tireoide? Nos meses seguintes, membros da audiência compartilharam exames em diferentes estados metabólicos — cetose, dieta carnívora e períodos de realimentação. O que foi relatado não bateu com o que a maioria dos blogs diz. Neste artigo, apresento o que aconteceu nesses casos, o que a literatura mostra e onde a maioria das pessoas com Hashimoto erra ao adotar low carb ou cetogênica.
Sumário
- O que aconteceu nos exames relatados: TSH, T3 livre e T4 livre em cetose, jejum e dieta carnívora.
- O que a literatura diz: estudos sobre cetose, T3 reverso e hipotireoidismo (Phinney/Volek, Bikman, Patterson).
- A armadilha que quase todos cometem: por que selênio e iodo são críticos — e como ajustes foram feitos.
- O que não seria recomendado sem conversar com um médico: casos em que cetose pode ser arriscada.
- FAQ: respostas baseadas nos relatos da audiência e no que a ciência relata.
Cetose e Tireoide: O Que Acontece Nos Exames?
A ideia de que low carb ou cetose sempre piora a tireoide é um mito. Mas também não é tão simples quanto “cetose cura Hashimoto”. Nos casos compartilhados pela audiência, os exames mostraram padrões diferentes dependendo do contexto:
- Jejum prolongado (7+ dias): em um relato, o TSH caiu consistentemente (de 3,2 para 1,8 no primeiro teste), mas o T3 livre teve quedas leves (de 3,1 para 2,8). O T4 livre se manteve estável.
- Dieta cetogênica padrão (70% gordura, 20% proteína, 10% carbo): em outro caso, o TSH subiu levemente (de 1,8 para 2,3), o T3 livre voltou a 3,0, e o T4 livre permaneceu estável.
- Dieta carnívora (100% animal, alta proteína): uma leitora documentou que seu TSH ficou em 2,1, o T3 livre em 3,2, e o T4 livre subiu de 1,1 para 1,3 (referência: 0,9–1,7).
O que isso sugere? Que o tipo de restrição de carboidratos importa. Jejum prolongado parece suprimir o eixo tireoidiano de forma mais aguda, enquanto dietas cetogênicas ou carnívoras podem ter efeitos diferentes — possivelmente pela quantidade de proteína e gordura. Estudos como o de Phinney e Volek (2011) mostram que, em cetose, o corpo prioriza a produção de T3 reverso (rT3), um metabólito inativo do T4. Isso não é necessariamente ruim: o rT3 pode ser uma estratégia de economia energética em estados de restrição calórica.
T3 Reverso (rT3): O Elefante Na Sala Que Ninguém Mede
A maioria dos médicos não solicita rT3 em exames de rotina. Mas em contextos de jejum ou cetose, ele pode ser um marcador importante. Em um caso compartilhado, o rT3 subiu de 12 para 22 ng/dL (referência: 8–25) durante um jejum de 7 dias. Não foi uma elevação preocupante, mas mostrou que o corpo daquela pessoa estava, de fato, entrando em modo de economia.
O que a literatura diz sobre rT3?
- Patterson et al. (2017): uma meta-análise sobre jejum intermitente mostrou que o rT3 tende a subir em períodos de restrição calórica, mas volta ao basal após a realimentação.
- Bikman (2020): em Why We Get Sick, ele descreve que o rT3 é uma resposta adaptativa, não patológica. Em cetose, o corpo usa gordura como combustível e “desliga” vias metabólicas desnecessárias — incluindo a conversão de T4 em T3 ativo.
- Estudos em atletas: corredores de endurance em cetose apresentam rT3 elevado, mas sem sintomas de hipotireoidismo (Fonte: Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2016).
O problema não é o rT3 alto per se, mas sim se ele permanece elevado após a realimentação. No caso relatado, o rT3 voltou a 14 ng/dL após 3 dias de realimentação com carboidratos. Se você tem Hashimoto e está em cetose, vale pedir o exame de rT3 para monitorar.
A Armadilha Que Quase Todos Cometem: Selênio, Iodo e Zinco
Em um relato inicial, uma seguidora não suplementava selênio. Seus anticorpos anti-TPO (um marcador de Hashimoto) estavam em 420 UI/mL (referência: <35). Após 3 meses suplementando 200 mcg de selenometionina por dia, os anticorpos caíram para 180 UI/mL. Não foi uma remissão, mas uma melhora significativa.
Por que selênio é crítico?
- Estudos mostram que o selênio reduz anticorpos tireoidianos em pacientes com Hashimoto (Fonte: Thyroid, 2016).
- A tireoide tem a maior concentração de selênio por grama de tecido do corpo. Ele é essencial para a conversão de T4 em T3 e para a proteção contra o estresse oxidativo.
- Iodo: em excesso, pode piorar Hashimoto. Pessoas que documentaram seus casos evitam suplementos de iodo e limitam alimentos ricos nele (como algas). Mas não cortam completamente — o iodo é necessário para a produção de hormônios tireoidianos. O equilíbrio é chave.
- Zinco: uma leitora suplementou 30 mg de zinco bisglicinato à noite. Estudos sugerem que o zinco melhora a conversão de T4 em T3 e reduz inflamação (Fonte: Biological Trace Element Research, 2015).
Onde as pessoas erram? Suplementando iodo sem monitorar anticorpos ou ignorando o selênio. Se você tem Hashimoto, vale conversar com seu médico sobre dosar selênio, zinco e iodo antes de suplementar.
Como Foi Documentado: Protocolos Compartilhados pela Audiência
Aqui está o que foi relatado nos últimos 2 anos por membros do canal:
Antes de Começar
- Exames basais: TSH, T4 livre, T3 livre, rT3, anticorpos anti-TPO e anti-tireoglobulina, selênio, zinco, vitamina D e cortisol.
- Jejum de 16:8 por 2 semanas para adaptação.
Durante Cetose/Jejum
- Suplementação: 200 mcg de selenometionina, 30 mg de zinco bisglicinato, 5000 UI de vitamina D3 + K2, 300 mg de magnésio bisglicinato.
- Monitoramento: glicose e cetonas via Keto-Mojo. Em um jejum de 7 dias documentado, a glicose de uma seguidora caiu de 92 para 65 mg/dL, e as cetonas subiram de 0,4 para 5,8 mmol/L.
- Sintomas: nos primeiros 3 dias de jejum, algumas pessoas relataram fadiga leve. Após o 4º dia, a energia voltou. Não houve relatos de sintomas de hipotireoidismo (pele seca, frio excessivo, queda de cabelo).
Após Realimentação
- Carboidratos: reintrodução lenta (50g/dia por 3 dias, depois 100g/dia). O rT3 voltou ao basal em 72 horas.
- Exames: repetição de TSH, T4 livre, T3 livre e rT3 após 1 semana de realimentação. Todos dentro da referência.
O que não seria recomendado sem ajustar com um médico:
- Jejum prolongado (>7 dias) sem monitorar rT3.
- Cetose com TSH já elevado (>4,0).
- Suplementação de iodo sem dosar anticorpos.
Casos Em Que Não Seria Recomendado Testar Sem Antes Conversar Com Um Médico
- TSH elevado (>4,0) ou T4 livre baixo (<0,9): cetose pode suprimir ainda mais a tireoide.
- Uso de levotiroxina: qualquer mudança alimentar pode exigir ajuste de dose. Sempre converse com o médico que prescreveu.
- Histórico de transtorno alimentar: jejum ou restrição podem desencadear recaídas.
- Gestação ou lactação: cetose não é testada em gestantes. Não é recomendado.
- Doenças autoimunes graves (além de Hashimoto): como lúpus ou artrite reumatoide, onde a inflamação já é alta.
- Crianças ou adolescentes: o eixo tireoidiano ainda está em desenvolvimento.
FAQ
1. Cetose piora Hashimoto?
Nos relatos compartilhados, não houve piora. Em um caso, os anticorpos anti-TPO caíram após suplementar selênio e ajustar a dieta. Mas a literatura é mista: alguns estudos mostram melhora em marcadores inflamatórios, outros relatam supressão tireoidiana em jejuns prolongados. O que foi observado é que o tipo de cetose importa — dietas muito restritivas em calorias ou proteína podem ser problemáticas.
2. Posso fazer cetose se tomo levotiroxina?
Isso deve ser discutido com seu médico. Quem usa levotiroxina precisa monitorar TSH e T4 livre de perto. A cetose pode alterar a absorção do medicamento (especialmente se tomado com café ou gordura). Nunca ajuste a dose por conta própria.
3. Preciso suplementar selênio?
Depende dos seus níveis. Em um relato, a suplementação foi de 200 mcg/dia porque os exames mostravam selênio no limite inferior (100 mcg/L). Mas doses altas (>400 mcg/dia) podem ser tóxicas. Vale dosar antes de suplementar.
4. Jejum intermitente afeta a tireoide?
Em relatos da audiência, jejum 16:8 não alterou os exames. Mas jejuns prolongados (>72 horas) podem elevar rT3. Se você tem Hashimoto, vale monitorar TSH e rT3 após jejuns longos.
5. Dieta carnívora é melhor para Hashimoto?
Uma seguidora testou dieta carnívora por 6 meses. Seus anticorpos anti-TPO caíram de 180 para 110 UI/mL, e o T3 livre se manteve estável. Mas não é uma regra — algumas pessoas relatam piora dos sintomas. O que foi observado é que a alta proteína pode ajudar na conversão de T4 em T3, mas a falta de fibras pode afetar o microbioma (que também influencia a tireoide).
6. Posso comer brócolis e couve em cetose se tenho Hashimoto?
Brócolis e couve são goitrogênicos — podem interferir na absorção de iodo. Em relatos, pessoas os consomem em quantidades moderadas (1-2 x/semana) e sempre cozidos (o cozimento reduz os goitrogênios). Se você tem deficiência de iodo, vale conversar com seu médico.
7. Cetose causa queda de cabelo em quem tem Hashimoto?
Nos casos documentados, não houve queda de cabelo. Mas ela pode acontecer por outros motivos: deficiência de nutrientes (zinco, ferro, selênio), estresse metabólico ou perda de peso rápida. Se notar queda de cabelo, vale dosar ferritina, zinco e selênio.
Conclusão
Nos casos documentados pela audiência ao longo de 2 anos com cetose, jejum e dieta carnívora, o que foi observado foi: a tireoide reage, mas não necessariamente de forma negativa. Em um relato, os anticorpos anti-TPO caíram, o TSH se manteve estável (com oscilações em jejuns prolongados), e o rT3 voltou ao basal após a realimentação. Mas isso não é uma garantia — cada corpo responde de forma diferente.
O que seria recomendado ajustar? Monitorar rT3 desde o início e suplementar selênio e zinco com base em exames. Também evitar jejuns prolongados sem exames prévios.
Se você tem Hashimoto e quer testar cetose ou low carb, converse com seu médico — especialmente se toma levotiroxina ou tem TSH elevado. E lembre-se: estes não são protocolos universais. O que funcionou para alguns membros da audiência pode não funcionar para você.
Para quem quer aprofundar, eu documentei protocolos detalhados no bundle de 12 ebooks (link para o protocolo que uso em minha pesquisa). E se você está começando, vale conferir a curadoria de livros que recomendo sobre metabolismo e tireoide.
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Este conteúdo descreve relatos de membros da audiência do Dr. Gabriel Marchesan Almeida (PhD em Computação, não médico). Não é orientação médica, não substitui consulta com profissional habilitado, e não deve ser aplicado sem avaliação individual. Sempre converse com seu médico antes de fazer mudanças alimentares ou de jejum, principalmente se você usa medicação ou tem alguma condição clínica.