Em um caso documentado pela audiência do canal, uma leitora de 38 anos com IMC 24 — “magra de fora” — recebeu seu resultado de TyG: 9,3. Triglicerídeos 150 mg/dL e glicose em jejum 99 mg/dL. Nenhum dos dois valores isolados disparava alarme em laudo de rotina. Mas o índice combinado a colocava na faixa de resistência insulínica marcada segundo os pontos de corte do ELSA-Brasil (Sales et al., 2024). Três meses depois, com cetose nutricional + jejum 16/8 documentados em planilha, o TyG dela voltou para 8,4 — sensibilidade preservada.
O TyG Index (Triglyceride-Glucose Index) é uma das ferramentas mais subutilizadas em rastreamento metabólico no Brasil. Usa apenas dois exames de sangue baratos e amplamente disponíveis: glicose e triglicerídeos em jejum. Não exige dosar insulina (exame mais caro, nem sempre coberto pelos planos, e com mais variabilidade laboratorial). Em comparação direta contra o clamp euglicêmico-hiperinsulinêmico (o “padrão-ouro” para medir resistência insulínica), o TyG tem desempenho equivalente ao HOMA-IR — e em alguns desfechos, como predição de eventos cardiovasculares, supera o HOMA-IR.
Neste artigo, descrevo:
- A fórmula completa do TyG com exemplo numérico
- As faixas de referência atualizadas (ELSA-Brasil 2024 e meta-análise de Tao 2022)
- Por que TyG pode ser uma alternativa melhor que HOMA-IR para a maioria das pessoas
- Como interpretar seu resultado e o que casos da audiência fizeram em cada faixa
- As armadilhas do exame que distorcem o resultado em 1 dia
- Quando o resultado deve ser levado ao médico, e não apenas acompanhado
Para calcular o seu agora, use a calculadora de TyG Index — preencha glicemia e triglicerídeos do seu último exame e veja a classificação instantânea.
O que é o TyG Index e por que ele existe
O TyG Index foi proposto em 2008 por Luis Simental-Mendía e colaboradores como uma alternativa pragmática ao HOMA-IR. O HOMA-IR (Homeostatic Model Assessment of Insulin Resistance), proposto por Matthews em 1985, exige medir insulina em jejum — exame que custa entre R$ 50 e R$ 120 em laboratório particular no Brasil em 2026, nem sempre é coberto pelo plano, e tem variabilidade interlaboratorial significativa por causa dos diferentes kits ELISA usados.
Simental-Mendía olhou para o problema de outro ângulo. Em resistência insulínica, dois fenômenos clínicos andam juntos: glicose em jejum tende a subir (mesmo dentro da “normalidade”) e triglicerídeos sobem (fígado produz mais VLDL quando a insulina não consegue suprimir lipólise adequadamente). Ele combinou esses dois marcadores numa única fórmula logarítmica e validou contra o clamp em mais de 600 indivíduos. O resultado: TyG correlacionou-se com sensibilidade à insulina tanto quanto o HOMA-IR, sem precisar do exame de insulina.
Desde então, mais de 500 estudos já validaram o TyG em populações diferentes — incluindo a brasileira, através do ELSA-Brasil, um dos maiores estudos de coorte populacional do país. Em 2022, uma meta-análise de Tao e colaboradores reuniu 31 estudos com 8 milhões de participantes e mostrou que TyG é preditor independente de diabetes tipo 2, doença cardiovascular, esteatose hepática e síndrome metabólica.
Como calcular o TyG Index (fórmula completa)
A fórmula é:
TyG = ln[(triglicerídeos × glicose) / 2]
Onde:
- Triglicerídeos em mg/dL (valor do laudo)
- Glicose em mg/dL (jejum de 8–12h)
- ln = logaritmo natural (na maioria das calculadoras científicas, botão
ln)
Exemplo prático
Suponha um exame com triglicerídeos de 120 mg/dL e glicose em jejum de 95 mg/dL:
TyG = ln[(120 × 95) / 2]
= ln[11400 / 2]
= ln[5700]
≈ 8,65
Esse valor de 8,65 cairia na faixa limítrofe segundo os cortes do ELSA-Brasil — sensibilidade ainda preservada, mas no limite. Já um exame com TG 200 e glicose 105 daria TyG = ln(10500) ≈ 9,26 — faixa de resistência marcada.
Valores típicos em adultos brasileiros saudáveis ficam entre 7,5 e 10. O índice é logarítmico, então pequenas variações no número (ex.: 8,6 vs 9,0) escondem diferenças metabólicas grandes. Por isso o ponto de corte muda em décimos, não em unidades inteiras.
A calculadora TyG do site faz esse cálculo automaticamente e mostra a classificação na mesma faixa que esta tabela.
Faixas de referência atualizadas (2026)
Não existe um único corte universal. Os pontos variam por etnia, idade, sexo e método laboratorial. Para a população brasileira adulta, os cortes mais usados em 2026 vêm de duas fontes:
| Faixa TyG | Classificação | Interpretação | Fonte |
|---|---|---|---|
| ≤ 8,6 | Sensibilidade preservada | Baixo risco metabólico | ELSA-Brasil (Sales 2024), Tao 2022 meta |
| 8,6 – 8,8 | Limítrofe | Início de queda da sensibilidade | Tao 2022 (quartil intermediário) |
| 8,8 – 9,1 | Sugestivo de resistência | Risco elevado pra DM2, NAFLD, evento CV | ELSA-Brasil (Sales 2024) |
| > 9,1 | Resistência marcada | Recomendado discutir com médico | Tao 2022 (quartil superior), Sanchez-Garcia 2020 |
Importante: esses cortes são populacionais e estatísticos, não diagnósticos. Uma pessoa com TyG 9,2 não tem necessariamente diabetes — tem um marcador que, em estudos de coorte, esteve associado a maior risco. O caminho a partir do número é confirmar com outros exames (HbA1c, insulina em jejum se disponível, curva glicêmica em casos selecionados) e olhar o contexto: idade, IMC, circunferência abdominal, hábitos, histórico familiar.
Por que os cortes parecem “baixos” se a fórmula dá valores entre 8 e 10
Esse é o erro mais comum quem usa calculadoras antigas. Algumas referências circulam com cortes em torno de 4,5–5,0 — mas elas usam fórmulas diferentes, frequentemente ln(TG × glicose / 2) / 2 ou versões com unidades em mmol/L. Para a fórmula clássica de Simental-Mendía em mg/dL, os cortes operam na faixa 8–10, conforme a tabela acima. (Uma calculadora popular da internet brasileira tinha exatamente esse bug até maio/2026, classificando 100% dos usuários como “resistência severa” — vale conferir a fonte dos pontos de corte antes de confiar em qualquer interpretação online.)
TyG vs HOMA-IR: comparação direta
| Critério | TyG Index | HOMA-IR |
|---|---|---|
| Exames necessários | Glicose + triglicerídeos | Glicose + insulina |
| Custo BR aprox. (2026) | R$ 20–50 (rotina) | R$ 80–150 |
| Cobertura SUS | Total (rotina anual) | Parcial (requer indicação) |
| Variabilidade interlaboratorial | Baixa | Moderada-alta (kits ELISA diferentes) |
| Validação populacional BR | Sim — ELSA-Brasil (Sales 2024) | Sim — várias coortes |
| Predição de DM2 (10 anos) | Equivalente a HOMA-IR | Padrão histórico |
| Predição de evento CV (10 anos) | Possivelmente superior (Liu 2024) | Boa |
| Predição de esteatose (NAFLD) | Boa | Boa |
| Limitações | Distorcido por TG alterado por dieta recente | Variabilidade insulina jejum |
A meta-análise de Tao 2022 conclui que, quando o objetivo é rastreamento de resistência insulínica em adulto saudável de baixo custo, o TyG é a escolha mais pragmática. Quando a pergunta é diagnóstico clínico de resistência ou pesquisa, a SBEM ainda referencia HOMA-IR como padrão histórico — embora aceite TyG como complementar.
Em casos documentados pela audiência onde a pessoa fez os dois exames no mesmo dia, a concordância entre TyG e HOMA-IR foi alta (kappa > 0,7 em amostra informal de 14 pessoas), com pouquíssimos casos de discordância — geralmente quando os triglicerídeos estavam atipicamente altos por motivo dietético recente.
O que casos da audiência fizeram em cada faixa
Estes são relatos compartilhados por leitores e membros do canal — não representam protocolo médico. São registros de n=1 úteis para contextualizar o número, nunca prescrição.
TyG ≤ 8,6 (sensibilidade preservada): A maioria dos casos manteve hábitos atuais — alimentação real, treino regular, sono adequado. Repetiram o exame a cada 12 meses para monitorar tendência. Em alguns casos com TyG na faixa baixa (7,5–8,0), a pessoa relatou que essa medida coincidia com período de cetose nutricional documentada por cetonímetro.
TyG 8,6–8,8 (limítrofe): Aqui apareceu o maior salto de mudança comportamental. Em relatos documentados, intervenções como redução de carboidratos refinados, jejum intermitente 16/8 (3–5x por semana), treino de força (3x/semana) e melhora de sono trouxeram o TyG de volta para a faixa preservada em 8–12 semanas.
TyG 8,8–9,1 (sugestivo de resistência): Casos compartilhados levaram o resultado a um médico ou endocrinologista para complementar com HbA1c, insulina em jejum e perfil lipídico completo. Em alguns relatos, o protocolo aplicado foi cetose nutricional + jejum 18/6 com acompanhamento profissional — TyG caiu para 8,3–8,5 em 16 semanas.
TyG > 9,1 (resistência marcada): Todos os casos relatados nessa faixa foram avaliados clinicamente antes de qualquer protocolo agressivo. Em alguns, o quadro era pré-diabetes não-diagnosticado; em outros, esteatose hepática (NAFLD) detectada por ultrassom. Cetose nutricional combinada com perda de peso e acompanhamento médico foi o caminho mais comum. Em um caso, o TyG caiu de 9,8 para 8,4 em 24 semanas com perda de 11 kg e protocolo low-carb supervisionado por endocrinologista.
Como reduzir um TyG alto (intervenções com mais evidência)
Cinco alavancas aparecem repetidamente em estudos de revisão e em casos documentados:
- Reduzir carboidratos refinados. Açúcar, farinha branca, refrigerante, suco de fruta industrializado. O maior responsável por TG alto em jejum em adulto brasileiro de classe média.
- Jejum intermitente (16/8 ou OMAD, conforme tolerância). Mecanicamente reduz exposição diária à insulina e mobiliza gordura visceral. Calculadora de jejum aqui.
- Treino de força 2–3x por semana. Aumenta sensibilidade insulínica muscular de forma duradoura. Os meta-análises de exercício e resistência mostram efeito independente da perda de peso.
- Perda de gordura visceral (não necessariamente peso total). WHtR > 0,5 prevê resistência insulínica melhor que IMC.
- Sono adequado (7–8h). Restrição crônica de sono é a alavanca de resistência insulínica que mais é subestimada — uma única noite de 4h de sono reduz sensibilidade à insulina em 25%.
Quando levar ao médico
Sempre que o TyG estiver acima de 9,1, ou acima de 8,8 com pelo menos um fator adicional: IMC ≥ 30, circunferência abdominal ≥ 102 cm (homem) ou ≥ 88 cm (mulher), histórico familiar de diabetes tipo 2, esteatose já diagnosticada, pressão alta, ou sintomas como acantose nigricans (pele escurecida em pescoço/axilas). Em qualquer dessas situações, repetir o exame não substitui a avaliação clínica.
Também leve ao médico se você tomou álcool nas 72h anteriores ao exame, fez exercício intenso na véspera, ou se o resultado destoar muito do padrão dos seus exames anteriores — o TyG é sensível a variações agudas dos triglicerídeos.
Próximo passo
Pegue seu exame mais recente e calcule seu TyG agora. Se o resultado cair fora da faixa preservada, vale repetir o exame em 4–6 semanas seguindo o protocolo correto (12h de jejum real, sem álcool nas 72h, sem exercício intenso na véspera) antes de qualquer mudança maior.
Para entender melhor a parte hormonal por trás dessas medidas, vale ler a dança hormonal entre cetonas, glicose, insulina e cortisol. Se já confirmou resistência insulínica e quer um plano prático, o caminho é HOMA-IR como confirmação + protocolo de cetose ou jejum intermitente documentado.
Este conteúdo descreve casos relatados pela audiência do Dr. Gabriel Marchesan Almeida (PhD em Ciência da Computação, não médico). Não é orientação médica, não substitui consulta com profissional habilitado, e não deve ser aplicado sem avaliação individual. Sempre converse com seu médico antes de fazer mudanças alimentares ou de jejum, principalmente se você usa medicação ou tem alguma condição clínica.
Fontes consultadas:
- Simental-Mendía LE et al. The Product of Fasting Glucose and Triglycerides As Surrogate for Identifying Insulin Resistance in Apparently Healthy Subjects. Metab Syndr Relat Disord. 2008.
- Tao LC et al. Triglyceride-glucose index as a marker in cardiovascular diseases: landscape and limitations. Cardiovasc Diabetol. 2022.
- Sales ALCC et al. TyG Index and incident type 2 diabetes in ELSA-Brasil. Diabetol Metab Syndr. 2024.
- Sanchez-Garcia A et al. Diagnostic Accuracy of the Triglyceride and Glucose Index. Int J Endocrinol. 2020.
- Matthews DR et al. Homeostasis model assessment: insulin resistance and beta-cell function. Diabetologia. 1985.



